segunda-feira, agosto 29

"É que hoje estou cansada..."


Mais uma noite de conversas vãs e sorrisos singelamente colocados para um vazio maior não aparecer em meu rosto.
Cansada de tanta futilidades, banalidades, bobagens, insignificantes, nos (dos) lugares que frequento. Quero pessoas interessantes, amizades que valham a pena, não essas que não me acrescentam nada e homens patéticos/bonitos que dizem olá, e não conseguem atingir bons frutos numa conversa.
Alguém com conteúdo não consegue viver nesse climinha oco por muito tempo. E é isso que vejo acontecer comigo.
Surtos à parte, amores casuais e olhares soltos... perdi o interesse desse nada que me consome.
Necessito de mais e de amor. De compreensão e afeto, e uma pitada de sal com tesão para me deixar mais alegre e com as bochechas rosadas que compensará a realidade fria em que vivo e sou.
Sou daquelas que acreditam no romântismo e que ainda acham que encontrarão sua alma gêmea algum dia, quando for comprar pão na padaria. E que por mais que naquele momento esteje com a cabeça nas nuvens, ele me olhará e na hora saberei que esse é o homem que me mandará flores e cartas amorosas ou pelo menos e-mails, e que encontrarei rosas espalhadas pela casa que estrategicamente farão o caminho para nosso ninho de amor. Será àquele que irá me escrever palavras lindas no espelho embaçado ou que simplesmente me acordará bem cedo para vermos o nascer do sol na praia.
Não sei se entendo o que se passa comigo, ainda fico refletindo se é muita propaganda vista na infância em filmes hollywoodianos e que hoje tormentam a minha maturidade, ou, que na verdade é um medo escondido nas impossiblidades.
Mas quero viver do intenso, do corpo, alma, sem fronteiras, pausas, interrupções.
Quero me doar e ser transbordada por alguém que sonhei em no fim, só completar.
Preciso de uma mão segurando a minha quando estou assustada com relâmpagos e trovões; de um afago quando nada daquilo que deveria dar certo, estiver dando. Almejo carinhos sem motivos iniciais, porém que importem e demonstrem tudo.
Certa vez me disseram que querer nem sempre é poder, todavia é ter esperanças que um dia aconteça, o problema é o "esperar" que só chega quando bem entende. Não sou paciente, em contrapartida venho esperando muito.

Só sei que se não for para viver assim, de paixão avassaladora; amor juvenil, meigo, simples e sincero; não quero, prefiro até viver de solidão, essa talvez, nunca minta para mim. 

domingo, agosto 28

Os Desastres de Sofia


... E mesmo agora ainda não sei o que vi, só que para sempre e em um segundo eu vi - assim eu nos entendi, e nunca saberei o que entendi. 
Nunca saberei o que entendo. 
O que quer que eu tenha entendido no parque foi, com um choque de doçura, entendido pela minha ignorância. 
Ignorância que ali em pé - numa solidão sem dor, não menor que a das árvores - eu recuperava inteira, a ignorância e a sua verdade incompreensível. 
(...) 
Tudo o que em mim não prestava, era o meu tesouro. 


Livro: Felicidade Clandestina.

domingo, agosto 7

Espera...


Não me digas adeus, ó sombra amiga,
Abranda mais o ritmo dos teus passos;
Sente o perfume da paixão antiga,
Dos nossos bons e cândidos abraços!

Sou a dona dos místicos cansaços,
A fantástica e estranha rapariga
Que um dia ficou presa nos teus braços...
Não vás ainda embora, ó sombra amiga!

Teu amor fez de mim um lago triste:
Quantas ondas a rir que não lhe ouviste,
Quanta canção de ondinas lá no fundo!

Espera... espera... ó minha sombra amada...
Vê que pra além de mim já não há nada
E nunca mais me encontras neste mundo!...

Florbela Espanca

Retrato Quase Apagado em que se Pode Ver Perfeitamente Nada


V
Escrever nem uma coisa Nem outra -
A fim de dizer todas
Ou, pelo menos, nenhumas.
Assim,
Ao poeta faz bem
Desexplicar -
Tanto quanto escurecer acende os vaga-lumes.


Manoel de Barros - O Guardador de Águas

sábado, agosto 6

O Pêssego


... Mas é no tato
Que a fonte do amor se abre.
Apalpar desabrocha o talo.
O tato é mais que o ver
É mais que o ouvir
É mais que o cheirar.
É pelo beijo que o amor se edifica.
É no calor da boca
Que o alarme da carne grita
E se abre docemente
Como um pêssego de Deus.

Manoel de Barros

quarta-feira, agosto 3

Um Casal


Eles agora viviam, sentiam.
Ela percebeu o quanto era sensato os porquês dele, e mesmo sem entender o amor falava mais alto, no fim, era o que importava.
Ele, na medida que a tinha por perto, soube que nunca mais conseguiria deixar aquele sorriso longe de seu peito, temia que acontecesse, doeria.
Aquele ano guardou algo de bom em suas vidas. O mundo refletiu a beleza daquela união.
Jeito tão difícil de demonstrar a paixão para eles que eram tímidos, no entanto, hoje, os carinhos saíam despretensiosos, visíveis, simples, alegres, se surpreendiam.
De fato, amavam. E era tão gostoso estar daquela forma, mal sabiam que era inspirador.
A convivência tava sendo tão boa, os risos e sorrisos rolavam soltos, olhares sinceros, beijos doces e provocantes.
Curtiam, curtiram, até os últimos dias, horas, minutos do romantismo, mas, necessitavam também da seriedade, amadureceram. Decidiram viver juntos, para sempre, criando um ser de bençãos que o amor uniu.
Viveram, sentiram, e viram, amores despreocupados, relaxados, amigáveis, crescendo, respirando, tomando forma, como o deles, e se tornarem felicidade até o fim de suas vidas.

Thami Silva

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